Ela achou que finalmente tinha encontrado o cara certo. Alto, moreno, olhos azuis, simpático, inteligente, ótimo senso de humor. E a melhor parte: completamente apaixonado por ela. A impressão era de que realmente tinha encontrado sua alma gêmea, a azeitona da empada, o picles do sanduíche.
Como se não bastassem todos esses atributos, ele ainda possuía o hábito de ser saudável. Praticava yôga (com acento circunflexo) todos os dias pela manhã e corria nos fins de semana. Tinha um corpo de dar inveja a qualquer um; graças a isso, dava graças a Deus todos os dias por ter mandado essa bênção dos céus pra sua vida.
Era cozinheiro, e dos bons. Trabalhava num restaurante refinadíssimo, em um bairro nobre. O melhor de tudo era que fazia questão de cozinhar para ela. Todos os dias, um prato diferente, sempre delicioso. Era especialista em cozinha vegetariana. Era vegetariano, inclusive: ela nunca havia imaginado que verduras preparadas por alguém tão apetitoso poderiam ser tão apetitosas.
E o namoro seguia como num conto de fadas. Ele a convenceu a ser saudável também. Ela passou a correr, a fazer yôga e a comer só o que vinha da terra. Ele era completamente contra o consumo de carne, fosse branca ou vermelha. Um absurdo matar um animal, já passamos da idade da pedra, não precisamos mais de tanta proteína, ele dizia. Cega de paixão, ela passou a concordar impreterivelmente com tudo.
Tudo estava indo muito bem até o dia em que...
Seus instintos mais primitivos acordaram e ela teve vontade de comer um belo pedaço de carne. Um filé, desses bem grossos, grelhados, com aquela bordinha de gordura, sabe? Ela podia ouvir o barulho do dito cujo sendo arremessado na chapa, aquela fumacinha, o cheiro da gordurinha derretendo.
Hoje o dia começou com a notícia de uma perda. Uma tia muito querida se foi, vítima de uma das doenças mais miseráveis desse mundo, a diabetes. Isso é terrivelmente triste, mas ainda resta o consolo de que o sofrimento tinha feito com que ela já tivesse deixado de viver, no sentido pleno da palavra, há algum tempo.
As piores perdas não são as causadas pela morte; são as que ocorrem em vida mesmo. São os amigos que os anos fizeram você perder contato, e que agora, quando os encontra, fica constrangido, porque não sabe o que conversar. É aquele rolo que poderia muito bem ter se transformado em namoro, mas acabou por um motivo besta, e só agora você enxerga isso.
É aquele primo de quem você era tão amigo e, por alguma razão desconhecida, agora parece um estranho. É aquela vizinha com quem você compartilhou toda a sua infância, e que agora você só cumprimenta com um leve levantar de sobrancelha. É a melhor amiga que mudou de cidade, ou mudou de colégio, ou mudou de turma, ou começou a namorar, e apenas se foi.
É aquela pessoa com a qual você trocava cartas cheias de confidências, e, sem razão nenhuma, sumiu – e agora não você tem nem idéia de onde esteja. É a amiga que participou de todas as crises e alegrias da sua adolescência, e que atualmente mora na quadra de trás da sua casa – mas você não se dá ao trabalho de ligar pra saber como estão as coisas, e ela também não o faz.
É ver que a pessoa que te conhece melhor que a sua mãe – por quem você tem uma puta admiração e carinho e em quem confia, e que defende até debaixo d’água – não sabe mais conversar com você, e nem você com ela. No máximo um papo no messenger, politicamente correto.
É conhecer uma pessoa incrível, querer se aproximar dela e nem ter a chance. É perder sem ter tido.
Claro que as perdas acabam sendo compensadas por uma série de “achados”, afinal é assim que o mundo funciona. Mas estes conquistam o seu lugar, nunca substituem ninguém por completo. Você muda, as coisas mudam. E a vida é simples assim...
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