No mês seguinte, ela foi chamada para contar, em rede nacional, toda a sua triste realidade. Todos ficaram penalizados por tanta desgraça junta. A audiência do programa aumentou absurdamente. Os patrocinadores adoraram. Tornou-se a sensação do programa por semanas seguidas. Toda semana ganhava uma coisa diferente: emprego novo, um cachorro novo, uma casa nova mobiliada com carro na garagem, alguns milhares de reais para reconstruir sua vida, cirurgias plásticas para reparar suas cicatrizes. Derramou litros de lágrimas de tanta emoção, a cada novo presente. Virou uma nova pessoa.
De quebra, casou com o dono da emissora do programa, aproveitou as plásticas reparadoras pra dar aquela recauchutada no visual, escreveu um livro de auto-ajuda que virou um best-seller, vendeu os direitos autorais para transformar sua história em filme, virou garota-propaganda de vários produtos. Ficou rica, obviamente abandonou o emprego e hoje vive de royalties. Volta e meia dá palestras sobre “como vencer na vida” em grandes empresas.
Leonora Beatriz deixou de ser aquela pessoa meiga e sonhadora do começo da história e se transformou no que muitos chamam de vencedora.
Se ela é feliz? Quem sabe...

Eu gosto de inverno, apesar de sofrer horrores com o frio (entenda-se pé gelado). Adoro a sensação de sair de casa toda encasacada, num belo dia de sol e céu de brigadeiro, e sentir o vento gelado batendo no rosto.
No inverno, voltar para casa é ainda mais especial. Aqui, o vento faz com que o frio seja ainda maior. E o frio faz com que minha relação com a cidade e com as pessoas que vivem aqui torne-se mais próxima. É difícil de explicar. Eu deixo de me sentir uma estranha e passo a ser, hmm, uma convidada.
É muito acolhedor chegar de uma viagem meio traumática e ser recepcionada com pinhão assado na chapa, o meu predileto. E depois sair jantar com a família, ouvir e contar histórias banais do dia-a-dia de cada um – e isso me fazer feliz e triste ao mesmo tempo, pois compartilhar cotidianidades não acontece conosco diariamente há uns sete anos.
É muito aconchegante, nesse frio, tomar banho no melhor chuveiro do mundo, deitar-me na cama que continua sendo a melhor do mundo e ter um sono tão tranqüilo que, quando me acordam cedo pela manhã, nem acho ruim. E sair de casa toda encasacada, num belo dia de sol e céu de brigadeiro, e sentir o vento gelado batendo no rosto.
É realmente muito bom sair com amigos que a distância não distancia. E ver que, apesar de cada um estar numa realidade diferente hoje, ainda temos assunto, nos sentimos à vontade e sabemos rir juntos. É maravilhoso perceber que uma amizade de 18 anos, considerada perdida, ainda está ali, intacta, pronta pra começar de novo.
E é só aqui que eu acabo pegando um filme água com açúcar (os quais dificilmente pegaria em qualquer outra ocasião) para ver no domingo a tarde e tenho a ótima surpresa de descobrir, em meio a um roteiro água com açúcar, palavras que exprimem muito do que estou tentando dizer nesse post inteiro.
O frio daqui me faz bem. Me faz esquecer até dos pés gelados.
i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart (i carry it in my heart)
i carry your heart with me – e.e. cummings
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